
O Auto Posto Bixiga Ltda., localizado na esquina da Rua Manoel Dutra com a Rua João Passalacqua, no bairro da Bela Vista, região central de São Paulo, foi identificado pela Justiça como destino de carregamentos de metanol desviado pelo grupo criminoso Primeiro Comando da Capital (PCC) para adulteração de combustíveis.
O posto já foi notificado ao menos 30 vezes entre 2022 e 2024 e interditado em quatro oportunidades no mesmo período após fiscalizações da ANP apontarem gasolina e etanol fora das especificações. Três interdições foram em 2022 e uma, em 2024. Em junho de 2022, a Agência Nacional do Petróleo (ANP) apontou alto teor de metanol no etanol vendido no local.
Segundo as investigações da Operação Carbono Oculto, que teve início na quinta-feira (28) e mira a infiltração da facção no setor de combustíveis, o PCC operava um complexo sistema de fraudes e lavagem de dinheiro que envolvia:
No setor de combustíveis, o esquema criminoso movimentou mais de 10 milhões de litros de metanol, importados de forma regular, mas desviados antes de chegar ao destino. A prática envolvia fraudes documentais, empresas de fachada e lavagem de dinheiro em instituições de pagamento.
O metanol não é produzido no Brasil. Segundo a investigação da Polícia Federal e do Ministério Público, a substância era importada pelo terminal marítimo de Paranaguá (PR), com notas fiscais em nome de distribuidoras como a Quantiq.
O destino formal da carga eram empresas químicas na cidade de Primavera do Leste (MT), como a MANNABIO, a mais de 1.600 km de distância do posto no Bixiga, em São Paulo, para uso na produção de biodiesel.
Na prática, porém, os caminhões desviavam a rota pela Rodovia Régis Bittencourt até a capital paulista. Conversas extraídas de celulares de motoristas flagrados pela Polícia Rodoviária Federal mostram que o combustível era descarregado em postos da Grande São Paulo, incluindo o Auto Posto Bixiga.
Segundo documentos judiciais, o desvio fazia parte de uma “complexa estrutura criminosa” montada para fraudar o mercado de combustíveis e gerar lucro com a adulteração. O PCC utilizava notas fiscais frias que simulavam transporte de álcool ou gasolina para mascarar as cargas de metanol.
A adulteração chegava ao consumidor final. A ANP, órgão do governo federal que fiscaliza a qualidade dos combustíveis de postos no Brasil, considera 0,5% como o percentual máximo permitido de metanol na gasolina. Mas, em alguns postos ligados ao grupo criminoso, a substância representava até 50% da composição do combustível.
O dono do Auto Posto Bixiga é Celso Abugao Silveira, conforme registros disponíveis em bases de dados empresariais recentes. O nome dele não foi citado nos processos nem nas decisões públicas relacionadas ao esquema de adulteração de combustíveis e lavagem de dinheiro vinculado ao PCC.
O motorista Vinícius Pimenta relata ter sido um dos clientes que sentiram o efeito da fraude nos combustíveis vendidos pelo posto. Ao g1, ele contou que, em 2022, seu Renault Clio começou a apresentar falhas logo após abastecer no Auto Posto Bixiga. Segundo ele, o estabelecimento oferecia promoções para pagamentos via PIX.